
Uma pesquisa desenvolvida por cientistas do Instituto de Física de São Carlos, da Universidade de São Paulo, em parceria com a Universidade do Texas A&M, apresenta uma nova estratégia para enfrentar um dos maiores desafios da saúde pública global: as infecções causadas por superbactérias hospitalares. O estudo indica que a combinação da terapia fotodinâmica com antibióticos tradicionais potencializa os efeitos do tratamento e pode reduzir significativamente a necessidade de doses elevadas de medicamentos.
A pesquisa teve como foco a bactéria Klebsiella pneumoniae, um dos principais agentes de infecções hospitalares graves, especialmente associadas à pneumonia em pacientes submetidos à ventilação mecânica. Altamente resistente a diversos antibióticos, esse microrganismo está entre as maiores causas de óbitos por infecção hospitalar em todo o mundo, segundo dados de vigilância epidemiológica internacional.
Luz e corantes tornam superbactérias mais vulneráveis aos antibióticos
O estudo avaliou o uso da chamada terapia fotodinâmica antimicrobiana, técnica que combina luz e substâncias fotossensibilizadoras para gerar moléculas reativas capazes de danificar células bacterianas. Os pesquisadores utilizaram dois corantes amplamente conhecidos na prática clínica, o azul de metileno e a fotoditazina, ativados por luz vermelha de LED.
Os testes analisaram o efeito dessas substâncias de forma isolada e em associação com antibióticos tradicionais, como ciprofloxacina, gentamicina e ceftriaxona. Os resultados demonstraram que o tratamento combinado foi significativamente mais eficaz na inibição do crescimento bacteriano do que qualquer uma das abordagens aplicadas separadamente.
De acordo com os dados obtidos, a associação entre luz e azul de metileno apresentou o melhor desempenho, promovendo uma redução de até seis vezes na carga bacteriana em comparação ao uso isolado dos antibióticos. Em alguns cenários, a combinação com ciprofloxacina levou à erradicação completa da Klebsiella pneumoniae após 18 horas de tratamento.

Redução de doses pode frear resistência bacteriana
Além do aumento da eficácia terapêutica, um dos pontos mais relevantes do estudo é a possibilidade de reduzir tanto as doses de antibióticos quanto a concentração dos fotossensibilizadores. Essa diminuição pode contribuir para a redução de efeitos colaterais nos pacientes e, principalmente, para o controle do avanço da resistência bacteriana.
A resistência aos antibióticos é classificada pela Organização Mundial da Saúde como uma das principais ameaças globais à saúde pública e ao desenvolvimento. O uso excessivo ou inadequado desses medicamentos acelera a seleção de bactérias resistentes, tornando tratamentos convencionais cada vez menos eficazes.
Ao tornar as bactérias mais suscetíveis à ação dos antibióticos, a terapia fotodinâmica funciona como um facilitador do tratamento, permitindo que medicamentos já existentes recuperem parte de sua eficácia mesmo contra microrganismos resistentes.
Superbactérias representam risco crescente em ambientes hospitalares
As chamadas superbactérias são microrganismos que desenvolveram resistência a múltiplos antibióticos, dificultando o tratamento das infecções que causam. Esse fenômeno está diretamente relacionado ao uso incorreto de antibióticos, como a automedicação, a interrupção precoce do tratamento e o uso indevido para doenças virais, como gripes e resfriados.
Em ambientes hospitalares, o problema tende a ser ainda mais grave. Pacientes internados, especialmente aqueles em estado crítico, frequentemente necessitam de procedimentos invasivos, como cateteres, sondas e ventilação mecânica. Esses dispositivos podem servir como porta de entrada para bactérias resistentes, ampliando o risco de infecções severas.
Falhas nos protocolos de higiene, limpeza inadequada e controle insuficiente de infecções também contribuem para a disseminação desses microrganismos dentro de hospitais e clínicas, aumentando a complexidade do cuidado e os custos do sistema de saúde.
Prevenção e inovação caminham juntas no combate às superbactérias
Especialistas reforçam que a prevenção continua sendo a principal forma de combate às superbactérias. Medidas simples, como higienização frequente das mãos, uso racional de antibióticos, adesão rigorosa aos protocolos de limpeza e isolamento de pacientes infectados, são fundamentais para reduzir a disseminação desses agentes.
Ao mesmo tempo, estudos como o conduzido por pesquisadores brasileiros e norte-americanos apontam caminhos promissores para o futuro do tratamento de infecções resistentes. A expectativa é que a combinação entre luz e antibióticos possa ser aplicada inicialmente em infecções localizadas, como feridas, úlceras e infecções respiratórias, onde o controle do foco infeccioso é essencial.
Por utilizar equipamentos e substâncias já conhecidas e empregadas no ambiente clínico, a proposta tem potencial para ser incorporada à prática médica de forma mais rápida do que terapias totalmente inéditas. A estratégia representa uma abordagem inteligente de reaproveitamento tecnológico para enfrentar um problema crescente da saúde moderna.
O estudo, publicado na revista Antibiotics, reforça a importância da inovação científica aliada ao uso racional de medicamentos. Ao reduzir a dependência de antibióticos cada vez mais potentes, a terapia combinada surge como uma alternativa promissora para tornar os tratamentos mais eficazes, seguros e sustentáveis no longo prazo.
Fonte: mdpi









