
Um medicamento antigo, barato e amplamente utilizado no tratamento do diabetes tipo 2 acaba de ganhar atenção por um efeito que vai muito além do controle glicêmico. Um estudo publicado na revista BMJ Open Ophthalmology acompanhou, durante cinco anos, cerca de 2 mil pessoas com diabetes e observou um possível benefício do uso da metformina na redução da progressão da degeneração macular relacionada à idade (DMRI).
A descoberta chama atenção porque a DMRI é uma das principais causas de perda de visão em idosos no mundo, comprometendo diretamente a autonomia e a qualidade de vida dessa população. Encontrar um possível fator de proteção em um medicamento já consolidado, considerado seguro e de baixo custo pode representar um avanço importante para a prática clínica, especialmente entre pacientes que convivem com o diabetes.
Além do potencial benefício para os pacientes, o estudo reforça uma tendência crescente na pesquisa médica: identificar novas aplicações para medicamentos já existentes. Essa estratégia pode acelerar a incorporação de novas abordagens terapêuticas, reduzindo custos e o tempo necessário para o desenvolvimento de novos tratamentos.
Estudo identifica redução na progressão da doença
Os pesquisadores identificaram que o uso contínuo da metformina esteve associado a uma redução de 37% na progressão da DMRI em estágio intermediário. Esse resultado permaneceu consistente mesmo após ajustes para fatores como idade, sexo, tempo de diabetes, presença de retinopatia diabética e controle glicêmico.
Conduzido por pesquisadores da Universidade de Liverpool, o estudo acompanhou pacientes com diabetes tipo 2 durante cinco anos por meio de exames periódicos de imagem da retina. A utilização desse método permitiu monitorar com maior precisão a evolução da doença ao longo do tempo.
A DMRI afeta a mácula, região da retina responsável pela visão central, utilizada para atividades como leitura, identificação de rostos e percepção de detalhes. A doença possui duas formas principais. A forma seca, responsável por cerca de 85% dos casos, caracteriza-se pelo afinamento gradual da mácula e pelo acúmulo de depósitos conhecidos como drusas, provocando perda progressiva da visão central. Já a forma úmida apresenta evolução mais rápida e ocorre devido ao crescimento de vasos sanguíneos anormais sob a retina, capazes de provocar vazamentos e comprometer significativamente a visão.
Segundo especialistas, existe uma explicação biológica plausível para a associação observada. Além de controlar os níveis de glicose, a metformina também atua em processos relacionados ao envelhecimento celular, reduzindo o estresse oxidativo e a inflamação, mecanismos diretamente envolvidos na progressão da degeneração macular. Como a retina possui elevada demanda metabólica e grande consumo de oxigênio, ela é especialmente sensível aos danos provocados pelo estresse celular, tornando essa hipótese biologicamente consistente.
Associação é promissora, mas ainda não altera a prática clínica
Apesar dos resultados positivos, os próprios pesquisadores destacam que o estudo apresenta limitações importantes. Por se tratar de uma pesquisa observacional, ela identifica apenas uma associação entre o uso da metformina e a menor progressão da doença, sem comprovar uma relação direta de causa e efeito.
Segundo Nicholas Beare, pesquisador da Universidade de Liverpool e principal autor do estudo, ainda não é possível afirmar que o medicamento seja responsável pela redução observada. Como todos os participantes possuíam diabetes tipo 2, também não se sabe se o possível benefício seria reproduzido em pessoas sem a doença.
Outra limitação importante é que nenhum paciente com degeneração macular em estágio avançado apresentou regressão da condição durante o acompanhamento. Isso indica que, caso o efeito seja confirmado futuramente, ele poderá estar relacionado principalmente ao retardamento da progressão da doença em fases intermediárias, e não ao tratamento de casos já estabelecidos.
Por esse motivo, especialistas defendem que o próximo passo seja a realização de ensaios clínicos prospectivos, capazes de confirmar se a associação encontrada realmente representa um benefício terapêutico para diferentes perfis de pacientes.

Reaproveitamento de medicamentos ganha espaço na medicina
O estudo sobre a metformina representa um exemplo do crescimento das pesquisas voltadas ao reposicionamento de medicamentos, estratégia que busca identificar novas aplicações para tratamentos já consolidados. Como esses medicamentos possuem perfil de segurança conhecido e ampla disponibilidade, o desenvolvimento de novas indicações pode ocorrer de forma mais rápida do que a criação de novos fármacos.
Caso futuras pesquisas confirmem o efeito protetor da metformina contra a degeneração macular relacionada à idade, o impacto poderá ser significativo para a saúde pública, especialmente considerando o envelhecimento da população e o aumento da incidência de doenças oculares.
Entretanto, até que novas evidências sejam produzidas, a recomendação permanece a mesma. O controle adequado do diabetes, o acompanhamento oftalmológico regular e a redução dos fatores de risco, como tabagismo, hipertensão e colesterol elevado, continuam sendo as principais estratégias para prevenir a progressão da DMRI.
O estudo amplia as perspectivas sobre o potencial terapêutico da metformina, mas também reforça a importância de interpretar resultados científicos com cautela. A diferença entre uma associação estatística e uma recomendação clínica consolidada depende de novas pesquisas, capazes de confirmar se esse benefício poderá, de fato, transformar a prática médica nos próximos anos.










