
A desinformação em saúde já ultrapassa o ambiente digital e passou a interferir diretamente na rotina dos profissionais e dos serviços de saúde.Uma pesquisa comparativa do Projeto PRAXIS, conduzido pelo grupo ECOS da Universidade de Brasília (UnB), analisou o papel dos profissionais da Atenção Primária à Saúde (APS) diante da desinformação em saúde em 13 países de língua portuguesa e espanhola. O estudo aponta que a circulação de conteúdos falsos compromete ações de prevenção e tratamento, tensiona a relação com pacientes e enfraquece a confiança da população nas autoridades sanitárias.
O estudo faz parte do projeto Estudos Comparados sobre a Desinformação em Saúde, coordenado pelo Laboratório de Educação, Informação e Comunicação em Saúde da Universidade de Brasília (ECoS/UnB), com participação de instituições brasileiras, entre elas a Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e universidades federais. A análise mostra que combater informações falsas exige mais do que corrigir conteúdos incorretos: também envolve comunicação, confiança e capacidade institucional de resposta.
Profissionais enfrentam informações falsas no contato direto com a população
Na Atenção Primária, onde o vínculo entre profissionais e comunidade tende a ser mais próximo, a desinformação pode ganhar impacto ainda maior. Agentes Comunitários de Saúde, enfermeiros e médicos de família convivem diariamente com dúvidas e informações que chegam por aplicativos de mensagens e redes sociais, muitas vezes compartilhadas por familiares, vizinhos ou lideranças comunitárias.
Esse cenário cria um desafio adicional para as equipes. Quando uma informação falsa chega acompanhada de medo, indignação ou desconfiança, apresentar apenas uma correção factual pode não ser suficiente para modificar a percepção do paciente. A abordagem passa a exigir capacidade de escuta, diálogo e tempo para explicar por que determinado conteúdo não é confiável.
A pesquisa também identificou fragilidades relacionadas à chamada literacia informacional e digital. Embora muitos profissionais utilizem a internet como ferramenta de atualização, há relatos de insegurança para avaliar a confiabilidade das fontes disponíveis na web.
O problema não está apenas no conteúdo de uma mensagem, mas também na maneira como ela circula e nos sinais de credibilidade que podem ser simulados. Uma informação falsa pode parecer confiável quando é compartilhada por alguém próximo ou apresentada em formatos que facilitam sua disseminação.
No Brasil, o estudo classificou o risco de desinformação como médio, com índice de 0,52, mas apontou um aspecto considerado crítico: os baixos níveis de literacia da população. Nesse contexto, os profissionais de saúde acabam assumindo, muitas vezes, o papel de traduzir informações científicas e ajudar os usuários a distinguir conteúdos confiáveis de mensagens enganosas.
Os dados coletados também mostram diferentes comportamentos entre os profissionais brasileiros. Mais de 30% afirmam apagar informações falsas recebidas e alertar quem as compartilhou. Já 51,2% dizem verificar primeiro se o site responsável pela publicação é uma fonte confiável. Cerca de 9,9% adotam uma postura mais passiva e apenas ignoram a mensagem.

Para os pesquisadores, essas atitudes refletem condições concretas de trabalho, como tempo disponível, formação para avaliação crítica de fontes, existência de protocolos e suporte institucional. Sem diretrizes claras, o combate à desinformação pode acabar dependendo da iniciativa individual de cada profissional.
Vacinação e comunicação oficial estão no centro do desafio
Entre os temas analisados, a vacinação aparece como um dos principais alvos da desinformação em diferentes países. Narrativas baseadas em medo, suspeita e desconfiança podem estimular a hesitação vacinal e dificultar a adesão da população às campanhas de imunização.
O impacto ultrapassa a decisão individual. Como as vacinas dependem de uma adesão ampla da população, a redução das coberturas vacinais pode comprometer a proteção coletiva e abrir espaço para o retorno de doenças que já estavam controladas.
Outro ponto destacado pela pesquisa envolve os próprios canais oficiais de informação. Segundo a análise, dificuldades de navegação, atualizações irregulares e falta de clareza podem tornar os sites institucionais menos eficientes justamente quando a população busca uma resposta rápida.
Esse cenário cria um paradoxo: quanto mais difícil for encontrar uma informação confiável em canais oficiais, maior pode ser a tendência de procurar respostas em redes sociais e aplicativos de mensagens, ambientes nos quais conteúdos enganosos circulam rapidamente.
Para os pesquisadores, enfrentar o problema exige repensar a forma como as instituições comunicam informações de saúde. Não basta produzir notas técnicas ou publicar desmentidos. A informação oficial precisa estar disponível de maneira acessível, clara e compatível com os hábitos de consumo de conteúdo da população.
Na prática, isso significa desenvolver materiais objetivos, compartilháveis e fáceis de compreender, além de fortalecer a capacidade dos profissionais para avaliar fontes e responder às dúvidas que chegam aos serviços de saúde.
A pesquisa reforça que a desinformação representa um desafio para a segurança do paciente, para a confiança nas instituições e para a própria organização dos serviços. No contexto da Atenção Primária, o enfrentamento passa pela qualificação dos profissionais, pelo fortalecimento da comunicação pública e pela criação de canais institucionais mais eficientes.
Mais do que uma disputa pela correção de informações, o cenário evidencia uma disputa por confiança e atenção. Para o setor de saúde, fortalecer a literacia informacional e aprimorar a comunicação com a população são estratégias importantes para reduzir os impactos de conteúdos falsos e apoiar decisões mais seguras.









