
O Brasil terá seu primeiro centro de protonterapia, técnica avançada de radioterapia usada no tratamento do câncer. O projeto será instalado na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, e representa um marco para a oncologia nacional.
A protonterapia foi aprovada pela Anvisa em 2017, mas o país ainda não possui nenhuma unidade em funcionamento. Até hoje, pacientes que precisam desse tipo de tratamento dependem de centros no exterior, o que restringe fortemente o acesso.
O novo Centro de Protonterapia Mário Kroeff conta com investimento superior a R$400 milhões e parceria técnica com a empresa belga Ion Beam Applications. A administração ficará a cargo da Fundação Educacional Severino Sombra.
Apesar do avanço, a chegada do centro ao SUS ainda enfrenta um longo caminho pela frente, com prazos que se estendem por anos até o início efetivo dos atendimentos.
O que está por trás do projeto de protonterapia
A protonterapia utiliza prótons, em vez de fótons, para atingir células tumorais com mais precisão, reduzindo os danos causados aos tecidos saudáveis ao redor do tumor. Essa característica diferencia a técnica da radioterapia convencional.
Segundo a oncologista pediátrica Viviane Sonaglio, do Centro de Referência de Tumores Pediátricos do A.C.Camargo Cancer Center, a maior precisão do centro contribui para reduzir efeitos colaterais ao longo do tratamento oncológico.
A especialista ressalta que a protonterapia não substitui a radioterapia convencional em todos os casos. A indicação depende da localização do tumor e da proximidade com órgãos considerados críticos para o paciente.
A chegada do centro é considerada especialmente relevante para a oncologia pediátrica. Segundo o Inca, o Brasil registra cerca de 8 mil novos casos de câncer infantojuvenil por ano, público mais sensível aos efeitos da radiação.
O projeto estima que cerca de 15% dos pacientes pediátricos com câncer no país possam ter indicação para o centro, especialmente em tumores cerebrais, sarcomas e casos próximos ao coração.
O cronograma de implantação da protonterapia inclui a fabricação do equipamento na Bélgica, processo que pode levar cerca de 18 meses, além da construção da estrutura física do centro.
Depois da fase de construção, ainda serão necessários testes de segurança, licenciamento nuclear e treinamento das equipes médicas, técnicas e de física médica envolvidas na operação da protonterapia.
Em julho de 2026, a Autoridade Nacional de Segurança Nuclear concedeu a Aprovação Prévia do Local, primeira etapa formal do processo regulatório que envolve a instalação do centro de protonterapia.

Impactos da protonterapia para o setor de saúde
Para hospitais e centros oncológicos, a chegada da protonterapia representa a possibilidade de reduzir a dependência de tratamentos realizados no exterior, hoje restritos a pacientes com alto poder aquisitivo.
Profissionais de saúde ganham, no médio prazo, uma nova ferramenta terapêutica para casos complexos, especialmente tumores localizados próximos a estruturas nobres, onde a precisão da protonterapia faz diferença relevante.
Para os pacientes do SUS, ao menos 60% da capacidade de atendimento do centro será destinada ao sistema público, ampliando o acesso a um recurso hoje praticamente inacessível pela via pública.
Ainda assim, os pacientes precisarão aguardar cerca de quatro anos até que a protonterapia esteja disponível, prazo que inclui todas as etapas de construção, testes e licenciamento previstas no cronograma.
A manutenção mensal de um centro de protonterapia deve custar cerca de US$ 1,2 milhão, valor que reforça o porte do investimento necessário para viabilizar esse tipo de estrutura no país.
Apesar do custo elevado, especialistas apontam que a protonterapia representa um salto tecnológico relevante para a radioterapia brasileira, sobretudo em casos pediátricos e tumores de difícil manejo.
A chegada da protonterapia ao Brasil marca um avanço relevante para a oncologia nacional, mas seu real impacto para pacientes do SUS só será sentido dentro de alguns anos, conforme o cronograma avança.
Para gestores e profissionais de saúde, acompanhar de perto a implementação da protonterapia será fundamental para entender como a técnica poderá se integrar à rede assistencial e ampliar as opções de tratamento oncológico no país.
O projeto também evidencia o quanto investimentos de alta complexidade tecnológica dependem de planejamento de longo prazo, reunindo etapas industriais, regulatórias e de formação de equipes antes de gerar impacto direto na assistência.









