
Mais de 40 substâncias estão atualmente em fase de testes clínicos ao redor do mundo com o objetivo de combater a sarcopenia, a perda progressiva de massa, força e função muscular associada ao envelhecimento. As pesquisas também avaliam benefícios para pacientes em tratamento de câncer, diabetes, ou que perderam volume muscular em decorrência do uso de medicamentos para emagrecimento.
Diferentemente dos esteroides anabolizantes sintéticos baseados em testosterona, que trazem efeitos colaterais graves para coração e fígado, as novas fórmulas em desenvolvimento utilizam estratégias biológicas mais específicas. A maioria dos fármacos em estágio avançado é composta por anticorpos monoclonais, administrados por injeções ou por canetas aplicadoras, no mesmo formato já popularizado pelas canetas emagrecedoras.
O objetivo desses medicamentos não é promover ganho muscular de forma indiscriminada. Segundo especialistas, a meta médica é mais específica: reduzir perdas musculares que possam comprometer a saúde e a capacidade funcional do paciente, especialmente entre a população que envelhece.
Como as substâncias agem no organismo
Duas frentes de pesquisa se destacam entre as mais promissoras: drogas que atuam bloqueando a miostatina e a activina, proteínas que funcionam como reguladores naturais do crescimento muscular. A miostatina, em especial, age como um “freio” que impede o crescimento exagerado dos músculos — mas, quando desregulada por fatores como alterações metabólicas, sedentarismo ou envelhecimento, seu excesso pode contribuir para o quadro de sarcopenia.
Entre os candidatos que chegaram a fases mais avançadas de investigação estão o apitegromab, o bimagrumab, da Eli Lilly, e o trevogrumab, da Regeneron. Parte dessas moléculas é estudada para doenças específicas, enquanto outras pesquisas avaliam seu potencial especificamente para conter a perda muscular. Mais recentemente, o ácido L-β-aminoisobutírico (L-BAIBA) também passou a integrar a lista de substâncias em investigação para o desenvolvimento muscular.
Um dado relevante vem de um estudo da Regeneron: após 26 semanas, a combinação testada teria evitado aproximadamente metade da perda de massa magra observada com o uso isolado de semaglutida. Os resultados são considerados promissores, mas ainda preliminares — os próprios pesquisadores indicam a necessidade de confirmação em estudos maiores. Outra investigação, conduzida pelo Massachusetts General Hospital, avalia a combinação de bimagrumab com tirzepatida, princípio ativo do Mounjaro, para verificar se é possível reduzir peso corporal preservando melhor músculos e ossos.

O que dizem os especialistas e quando as substâncias podem chegar ao mercado
O endocrinologista Felipe Henning Gaia, chefe do Serviço de Endocrinologia Oncológica do A.C.Camargo Cancer Center e presidente da regional paulista da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), avaliou ao jornal O Globo que o envelhecimento da população torna a preservação da massa muscular cada vez mais essencial para manter as pessoas saudáveis, ativas e independentes. Segundo o especialista, o corpo humano não acompanha o mesmo ritmo do progresso científico que tem ampliado a expectativa de vida, o que reforça a importância da atividade física, mas, na visão dele, medicamentos como esses também podem contribuir para reduzir a perda muscular associada à longevidade saudável.
Clayton Macedo, coordenador do Ambulatório de Endocrinologia do Exercício da Unifesp e integrante da diretoria da SBEM, pondera que essas drogas, usadas isoladamente, ainda não demonstraram efeito significativo para aumentar massa magra. Ele explica que, quando combinadas às canetas emagrecedoras, agonistas de GLP-1, GIP e glucagon, essas substâncias parecem conseguir minimizar a perda muscular, mas ressalta que mais estudos ainda são necessários para confirmar esse efeito. O especialista também alerta que essas drogas não devem ser vistas como solução isolada nem como forma de ganho extra de massa muscular.
Tiago Fernandes, especialista em fisiologia muscular do Laboratório de Bioquímica e Biologia Molecular do Exercício da USP, acredita que essas drogas podem representar um avanço relevante, desde que usadas de forma adequada. Já a fisioterapeuta Ana Carolina Panveloski Salomão avalia que, para pacientes com sarcopenia grave ou imobilizados por doença ou acidente, um fármaco capaz de preservar a massa muscular, mesmo sem melhorar a função, já representaria uma diferença relevante, podendo ser associado a outros tratamentos, como a estimulação elétrica muscular.
Apesar do apelido “canetas para músculos”, ainda não existe nenhuma substância aprovada e disponível nas farmácias para esse fim. A expectativa é que, caso aprovados nos Estados Unidos, alguns desses medicamentos possam chegar ao Brasil a partir de 2028 ou 2029.
Para clínicas e profissionais de saúde que acompanham pacientes com sarcopenia ou em processos de emagrecimento acentuado, o avanço dessas pesquisas reforça a importância de acompanhar de perto os próximos resultados clínicos antes de considerar qualquer indicação terapêutica. A combinação entre medicamentos e atividade física segue sendo apontada pelos especialistas como o caminho mais consistente para a preservação muscular ao longo do envelhecimento.









