
Os smartwatches vêm ampliando sua atuação muito além do acompanhamento de atividades físicas e da medição de batimentos cardíacos. Agora, uma nova pesquisa conduzida por cientistas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) aponta que esses dispositivos poderão desempenhar um papel importante no monitoramento da saúde mental ao identificar episódios de ansiedade em tempo real por meio de inteligência artificial.
O estudo faz parte das pesquisas realizadas pelo Centro de Pesquisa Aplicada Viva Bem, iniciativa financiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) e pela Samsung. A tecnologia desenvolvida utiliza dados coletados continuamente pelos smartwatches para reconhecer padrões fisiológicos associados à ansiedade, alcançando uma precisão superior a 80%.
Embora o projeto ainda esteja em fase de aprimoramento, os resultados reforçam o potencial dos wearables como aliados na prevenção e no acompanhamento de diferentes condições de saúde.
Como a inteligência artificial identifica sinais de ansiedade
O sistema combina diferentes informações captadas pelos sensores do relógio inteligente para criar um perfil fisiológico individual do usuário.
Entre os principais dados analisados estão:
- atividade elétrica do coração, obtida por meio do eletrocardiograma (ECG);
- padrões de movimento registrados pelos sensores de acelerometria;
- comportamento corporal observado ao longo do dia.
Esses dados são processados por algoritmos de inteligência artificial capazes de reconhecer alterações que indicam um possível estado de ansiedade.
Em vez de utilizar apenas um parâmetro isolado, a tecnologia cria uma espécie de “assinatura fisiológica” personalizada para cada pessoa. Com isso, o sistema consegue identificar mudanças em relação ao padrão habitual do usuário, aumentando a precisão das análises.

Treinamento dos algoritmos ocorre em ambiente controlado
Para ensinar a inteligência artificial a diferenciar momentos de tranquilidade e situações de ansiedade, os pesquisadores desenvolveram protocolos clínicos específicos.
Durante os testes, os participantes são submetidos a desafios cognitivos que geram níveis controlados de estresse, como resolver cálculos matemáticos complexos em um curto período de tempo enquanto acompanham uma contagem regressiva exibida no próprio smartwatch.
Enquanto executam essas tarefas, os sensores registram continuamente as respostas fisiológicas do organismo. Essas informações servem para treinar os modelos de IA, permitindo que eles reconheçam padrões semelhantes quando ocorrerem no uso cotidiano.
Esse processo de aprendizado contínuo é um dos fatores responsáveis pela elevada taxa de acerto apresentada pela tecnologia.
Ferramenta não substitui diagnóstico médico
Apesar dos resultados promissores, o objetivo da solução não é realizar diagnósticos clínicos.
A proposta é funcionar como uma ferramenta preventiva capaz de alertar o usuário quando forem detectados episódios frequentes de ansiedade ou alterações relevantes em seus indicadores fisiológicos.
Ao receber esse tipo de alerta, a recomendação será procurar avaliação de um médico ou profissional especializado em saúde mental.
Essa abordagem pode contribuir para que pessoas que convivem com sintomas pouco perceptíveis busquem atendimento antes que o quadro evolua para problemas mais graves.
Plataforma também poderá monitorar outras doenças
Os pesquisadores informam que a mesma tecnologia utilizada para detectar ansiedade poderá ser aplicada no acompanhamento de outras condições clínicas.
Entre as possibilidades estudadas estão:
- hipertensão arterial;
- diabetes;
- doença de Parkinson;
- risco de quedas em idosos.
A ideia é que os dispositivos atuem como um sistema de monitoramento contínuo da saúde, identificando alterações precoces que muitas vezes passam despercebidas durante a rotina.
Esse modelo acompanha uma tendência crescente da medicina preventiva, baseada na coleta constante de dados e no uso da inteligência artificial para apoiar decisões clínicas.
Próximos passos envolvem testes com usuários
Embora os resultados iniciais sejam considerados positivos, a tecnologia ainda não está disponível para uso comercial.
Os pesquisadores continuam aprimorando os algoritmos para aumentar a confiabilidade das análises antes de iniciar estudos com usuários em situações reais.
Após essa etapa, será necessário obter autorização dos órgãos reguladores, incluindo a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), para que a solução possa ser testada oficialmente em larga escala.
Somente depois desse processo será possível avaliar sua adoção em dispositivos utilizados pela população.
Inteligência artificial fortalece a medicina preventiva
O avanço dos wearables mostra como a inteligência artificial vem assumindo um papel cada vez mais relevante na assistência à saúde.
Dispositivos capazes de monitorar sinais fisiológicos continuamente podem oferecer informações valiosas tanto para pacientes quanto para profissionais, contribuindo para uma abordagem mais preventiva e personalizada.
No caso da saúde mental, essa tecnologia pode representar um importante complemento ao acompanhamento clínico, especialmente em situações nas quais os sintomas surgem de forma gradual ou passam despercebidos pelo próprio paciente.
Ao mesmo tempo, especialistas reforçam que essas soluções devem atuar como ferramentas de apoio e não substituir a avaliação realizada por médicos, psicólogos ou outros profissionais da saúde.
À medida que os algoritmos evoluem e os dispositivos vestíveis se tornam mais sofisticados, cresce a expectativa de que a inteligência artificial contribua para identificar precocemente diferentes condições clínicas, promovendo diagnósticos mais rápidos, tratamentos oportunos e melhor qualidade de vida para os pacientes.









