
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou, em 22 de junho, o registro do fezolinetanto, comercializado no Brasil sob o nome Veoza. Trata-se do primeiro medicamento não hormonal desenvolvido especificamente para o tratamento dos fogachos associados à menopausa, um marco relevante para a ginecologia e para milhões de mulheres brasileiras.
O medicamento, de uso oral e diário, é indicado para o alívio de sintomas vasomotores moderados a intensos, as chamadas ondas de calor e os suores noturnos, que afetam grande parte das mulheres durante a transição menopausal. O tratamento liberado pela Anvisa passa a ser uma alternativa para mulheres que não podem utilizar a terapia de reposição hormonal, considerada o padrão-ouro no controle desses sintomas.
Para a prática clínica, a novidade amplia o arsenal terapêutico disponível a ginecologistas e médicos de família, especialmente diante de um cenário em que a saúde da mulher no climatério ainda carece de opções seguras e diversificadas.
O que é o fezolinetanto e como ele atua no organismo
O Veoza (fezolinetanto) impede que a neurocinina B se ligue aos seus alvos no cérebro, reduzindo o número e a intensidade das ondas de calor e dos suores noturnos. Diferentemente da terapia hormonal tradicional, o fármaco não repõe estrogênio — ele age diretamente no circuito cerebral responsável pela regulação térmica.
Antes da menopausa, existe um equilíbrio entre o hormônio estrogênio e a neurocinina B, proteína que regula o centro de controle de temperatura do cérebro. Com a queda dos níveis de estrogênio característica dessa fase, esse equilíbrio é rompido, o que favorece o surgimento dos fogachos. O mecanismo envolve neurônios conhecidos como KNDy, localizados no hipotálamo, área cerebral responsável pelo termostato corporal.
Segundo dados apresentados pelo fabricante a Anvisa, estudos demonstraram que, em quatro semanas de tratamento, o medicamento reduziu em média 53% as ondas diárias de calor, com intensidade também menor entre as participantes tratadas em comparação ao placebo.
Uma alternativa para quem não pode usar hormônios
A chegada do fezolinetanto é especialmente relevante para um grupo específico de pacientes. O medicamento pode representar uma opção para mulheres com histórico de câncer de mama, contraindicações cardiovasculares ou que optem por não utilizar hormônios.
Até então, a reposição hormonal era a principal ferramenta terapêutica disponível para o controle desses sintomas, mas seu uso é vetado ou desaconselhado para parcela significativa das pacientes. A entrada de uma via de tratamento não hormonal reduz essa lacuna assistencial e amplia a possibilidade de tratamento individualizado — um dos pilares da medicina contemporânea centrada no paciente.
O peso dos sintomas vasomotores na saúde da mulher brasileira
Os números reforçam a relevância da aprovação. No Brasil, 36,2% das mulheres entre 40 e 65 anos apresentam sintomas moderados a intensos, índice acima da média global de 15,6%. Entre as brasileiras afetadas, quase 70% relatam sintomas intensos, com impacto direto na qualidade do sono, na produtividade e no bem-estar.
Em âmbito internacional, relatório da Agência Europeia de Medicamentos (EMA) estima a prevalência global de sintomas vasomotores associados à menopausa entre 11% e 47% em mulheres com mais de 40 anos.
Além do desconforto imediato, a persistência desses sintomas sem manejo adequado preocupa especialistas. Quando persistentes e sem tratamento adequado, os sintomas podem estar associados ao aumento do risco cardiovascular e a doenças neurodegenerativas, incluindo alguns tipos de demência — o que reforça a importância de diagnóstico e acompanhamento médico oportunos, e não apenas o manejo isolado do incômodo.
Base científica e próximos passos para chegar às farmácias
A aprovação pela Anvisa não veio sem respaldo robusto de evidências. A decisão da Anvisa é baseada nos resultados do programa BRIGHT SKY, que incluiu três ensaios clínicos de Fase 3 realizados na Europa, nos Estados Unidos e no Canadá, reunindo mais de 3 mil participantes. O registro foi formalizado por meio de resolução publicada no Diário Oficial da União.
Apesar da aprovação regulatória, o medicamento ainda não está disponível nas farmácias brasileiras. A disponibilização depende da análise da Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (CMED), órgão responsável pela definição dos preços dos medicamentos no país, sem previsão de prazo para conclusão dessa etapa regulatória. Esse intervalo entre aprovação sanitária e acesso efetivo ao tratamento é um ponto de atenção recorrente na saúde pública brasileira e deve ser acompanhado por profissionais e gestores de saúde.

O que essa aprovação representa para o futuro do cuidado no climatério
A chegada de uma terapia não hormonal eficaz para os sintomas vasomotores da menopausa marca uma mudança de paradigma no manejo dessa fase da vida da mulher, historicamente tratada com poucas alternativas terapêuticas comprovadas. Mais do que uma novidade farmacológica, o episódio evidencia o avanço da pesquisa em saúde da mulher e o reconhecimento crescente de que o climatério exige respostas clínicas específicas, seguras e diversificadas.
Para o sistema de saúde, o desafio agora se desloca da aprovação regulatória para o acesso: preço, incorporação e disponibilidade real nas farmácias serão determinantes para que o benefício clínico chegue às pacientes que mais precisam. Fica também a lição de que a inovação médica só cumpre seu papel quando caminha lado a lado com a educação em saúde, o diagnóstico precoce e o acompanhamento clínico qualificado.









