
As mudanças climáticas já aparecem associadas ao avanço de doenças infecciosas no Brasil, segundo especialistas e estudos recentes. A dengue é o exemplo mais claro: um estudo da Fiocruz mostra que as microrregiões com nível epidêmico da doença subiram de 110 para 292 entre 2006 e 2024.
O número equivale a 54% do país. As demais 46% das microrregiões registraram incidência média a baixa, o que indica que a transmissão, antes restrita a áreas mais quentes, hoje alcança regiões antes protegidas pelo clima.
O cenário, porém, vai além da dengue. A febre do Oropouche, que circulava quase só na Região Amazônica até 2023, causou mais de 12 mil infecções em 23 estados e no Distrito Federal em 2025. O hantavírus soma 530 infecções confirmadas e 212 mortes desde 2016, e fungos que se adaptam ao calor passaram a preocupar hospitais pela alta letalidade dos surtos.
Dengue chega a regiões antes protegidas pelo clima
Desde a década de 1980, o Brasil registra surtos comprovados de dengue. O mosquito Aedes aegypti se desenvolve melhor em regiões quentes e úmidas, e por isso o clima funcionava como uma barreira natural em partes do país. O Rio Grande do Sul, por exemplo, só teve um caso não importado em 2007.
Em 2024, ano de número recorde de casos no Brasil, o estado teve cerca de 210 mil infecções confirmadas e 281 mortes. A Bahia, mais acostumada a temperaturas altas, registrou cerca de 163 mil casos confirmados e 188 óbitos.
Segundo o estudo da Fiocruz, a maior frequência de anomalias térmicas, ou seja, de temperaturas muito diferentes das habituais, é o indicador climático que melhor explica o aumento de incidência no longo prazo. Os autores afirmam que a expansão da transmissão parece irreversível, já que dificilmente se volta à transmissão zero depois que o vírus e o vetor são introduzidos.

Oropouche, leptospirose e hantavírus entram no radar
A febre do Oropouche circulava quase exclusivamente na Região Amazônica até 2023. Em 2025, causou mais de 12 mil infecções em 23 estados e no Distrito Federal. A relação com o clima ainda está em investigação, mas especialistas apontam mudanças de temperatura e de chuvas, somadas à degradação ambiental, como fatores da expansão.
Eventos como secas e enchentes, mais frequentes com as mudanças climáticas, também aumentam o risco de surtos. No Rio Grande do Sul, após o desastre das chuvas, a frequência de leptospirose aumentou muitas vezes. A bactéria é transmitida principalmente pela urina de ratos, espalhada pelas enchentes, e a água da enxurrada pode se misturar ao esgoto e contaminar bebida e alimentos.
Em períodos de incêndios, animais da floresta, sobretudo pequenos mamíferos, migram para perto das casas, o que pode favorecer a transmissão de doenças. O hantavírus é o exemplo mais preocupante: a cepa que circula no Brasil causa síndrome cardiopulmonar grave, e desde 2016 foram confirmadas 530 infecções e 212 mortes, com letalidade de 40%.
Fungos se adaptam e preocupam hospitais
A reportagem também destaca os fungos. Segundo especialistas, as mudanças climáticas levam alguns deles a se adaptar e a se tornar nocivos ao ser humano. A temperatura corporal média é de 37 °C, e 95% dos fungos do ambiente não conseguem crescer nessa temperatura, mas a adaptação vem rompendo essa barreira.
A Candida auris sobrevive a altas temperaturas e resiste por muito tempo no ambiente. Surtos em hospitais têm letalidade entre 40% e 60%. Já o Aspergillus teve o primeiro registro de infecção no Brasil em 2020, na Bahia, e desde então foram 24 ocorrências em 15 estados, todas em unidades de saúde. Dos 146 pacientes colonizados, 56 morreram, e a letalidade chega a 82% quando o fungo atinge a corrente sanguínea.
O que isso muda para clínicas e instituições de saúde
Para clínicas, consultórios e hospitais, o cenário reforça a importância de acompanhar a evolução das doenças infecciosas e de manter registros organizados de atendimentos e ocorrências. A circulação de doenças em novas regiões pode mudar o perfil de pacientes e a demanda por atendimento.
O avanço da dengue para microrregiões antes protegidas pelo clima mostra que unidades de saúde de áreas sem tradição de surtos também podem ser afetadas. Do mesmo modo, a presença de fungos como a Candida auris e o Aspergillus em ambientes hospitalares, com letalidade elevada nos casos descritos, coloca a vigilância dentro das próprias instituições como um ponto de atenção para as equipes.
Em um cenário em que as doenças infecciosas ganham novos territórios, acompanhar as evidências e manter a gestão preparada é parte do cuidado com o paciente e com a instituição.








